____5 colherinhas de açúcar.
senta-se sempre à beira da mesa,
tanto faz o lado, direito ou esquerdo.
tem mesmo é que ser o centro das atenções.
empolga-se quando o assunto é arte ou amor.
outro dia num jantar debateu com uma artista
e disse que não tinha certeza se Aleijadinho existira.
achava que não,
era quase certeza que não,
era muito duvidoso o histórico todo
e não, realmente não.
num salto, o assunto estendeu-se até a Varejão
e então, sorrindo cativou os presentes.
na saída foi surpreendida com o livro de
Angélica Freitas na mão.
alguém lhe perguntou e adorou a coincidência,
alguém-amigo da poeta.
irressistivelmente a Gertrude pintou no papo
e até o pato de borracha da banheira
(uma visão-ação da primeira poeta para com a segunda)
teve sua vez de ser discutido.
Gertrude pra lá, Gertrude pra cá
e de repente disseram: prefiro a Alice B. Toklas!
naaaaaaaaaaaão!!!
aquilo era praticamente sua expulsão daquele jantar.
ela amava Gertrude.
amava Gertrude.
amava,
amava,
amava,
a Gertrude,
demais, amava a Gertrude.
oh, muito dramática e sentimental.
quem é mais sentimental?
ela nunca consegue evitar.
quase chorou diante da roda por causa da gorducha da Gertrude.
para não chorar pregou o olhar para além da janela
e viu um pequeno vaga-lume bater no vidro querendo entrar.
lindos seus olhinhos-verdes mais verdes que as folhas do jardim.
quis sorrir;
não ouviu mais nada do que lhe disseram e foi melhor assim.
.
outro dia na saída de uma estréia teatral
ouviu um gatinho miar miar miar
andou pelos arredores até encontrar
o bichinho
preto e magrelo de olhos mel.
os amigos à porta do teatro olharam curiosos.
ao mais sensível pediu que ficasse de olho no gatim
e ao segundo, mais cavalheiro,
pediu que a acompanhasse: volto já!
trouxe num potinho um pouquinho de leite.
era tão bonito o contraste do branco com o negro do gato.
pensava nisso sorrindo
enquanto o bichano bebia todo o leite do mundo,
esganado.
.
em meio a essa cena,
o mais travesso e infantil dos amigos,
deu um nó no cadarço do all-star azul do outro.
este, o bobo-distraído,
ao levantar-se,
quedou-se de cara no chão.
digo, primeiro de joelhos, tamanho o susto,
depois de queixo mesmo.
a cena foi patética, ridícula,
vê-lo cair assim,
feito fruta madura do pé.
todos riram.
muito.
tadinho;
machucou!
alguém gritou.
então ela chorou.
oh, muito dramática, muito sentimental.
sentiu-se extremamente cruel, bem como considerou à todos,
por rirem.
o joelho e o queixo sangrando, não podia tocar.
aproximou-se sorrindo deu a mão ao amigo
e de leve soprou.
lembrou que acabara de encher de bactérias o machucado,
mas nisso não se martirizou,
pois o amigo lhe sorrira de volta
e disse que agora
doía bem menos.
.
numa noite fria caminhava ao lado de sua menina pela Paulista
e seu casaco não estava apropriado ao frio que fazia.
as costas e os seios praticamente nus.
os mamilos arrepiados, arrebitados, nus.
o frio fazia com que tremelicasse e suas frases ganhassem
uma entonação nas últimas sílaBAUSSX.
passaram em frente ao MASP e a lembrança do quadro de Renoir
quase a fez entrar
ou chorar por não conseguir,
passava das 20h e o museu estava fechado.
no bar em frente, um rapaz de dreadss tocava saxx ou era jazz?
e se lembrou de quando era uma criança
e seu pai botava aquela música para tocar na vitrola
aos domingos.
já passava das 23h e certamente seu pai estaria dormindo
quando chegasse em casa,
o que não lhe permitiria
dividir tal lembrança e saudade
ou simplesmente lhe dar um beijo de boa noite.
então quis chorar,
mas sua menina pressentiu o riacho em seus olhos
e lhe abraçou antes,
apontando qualquer ponto curioso na imensa avenida;
distraiu-se.
.
nunca foi à Europa, mas certa vez,
foi à Europa com um de seus melhores amigos.
visitou Londres, ficou em Berlim e passou rapidamente por Paris.
os dedos duros, roxos,
aquilo não era frio, tinha outro nome.
as chaminés eram mesmo um charme.
usar luvas era mesmo um saco.
um vestido da Chanel era mesmo caríssimo em qualquer lugar do mundo.
chás eram apropriados a qualquer hora do dia,
mas tinham hora marcada,
o famoso chá das cinco.
nevar era um acontecimento,
a neve era linda.
ela se perdia na janela,
horas,
provavelmente chorou quando viu nevar pela primeira vez.
era lindo,
lindo aqueles floquinhos branquinhos caindo do céu,
empilhados no gramado,
um
a
um.
a europa era linda,
já lhe tinham dito,
que ela adoraria a europa,
que as pessoas na europa eram educadas e cultas,
que prezavam o charme e o vestir-se bem,
que arte era arte era arte era arte na europa,
que a europa era a sua cara etc.
emocionou-se sem choro.
.
acordava cantando marchinhas carnavalescas;
mas em Berlim?!
não entendia.
pensava em algo mais conveniente.
não conseguia.
pela manhã só lembrava de cantar marchinhas carnavalescas.
e então chorava por considerar que isso escondia algum sinal
de extrema saudade de seu país, seus pais e amigos.
lembrou de seu amigo ruivo,
do gato cor-de-rosa da vizinha,
da sutileza de sua namorada ao beijá-la em público.
sem notar botou umas 5 colherinhas de açúcar no chá,
suspirou e tomou e… cuspiu!
precisava de um cigarro.
a garganta coçava de tão açucarada.
brlllbrrrrlllrr;
achou bonita a consideração e sorriu.
finalmente sucumbiu à idéia de que a vida é feita para sorrir e dormir
e dançar e cantar e amar e pular e sonhar e brincar e brlllbrrrrlllrr.
*